ago 23 2011

O divisionismo na Igreja brasileira

Autor: Robinson Cavalcanti
Fonte: Publicado com o título “A Igreja vive em pecado – III” no site da Diocese Anglicana do Recife.

O primeiro século do Protestantismo no Brasil ainda foi marcado pela era de uma relativa “sobriedade” quanto ao divisionismo. Somando-se os grupos migratórios e os missionários, de 1810 (Tratado de Livre Navegação e Comércio) a 1910, se estabeleceram aqui as seguintes “denominações”:

1. Luteranos;

2. Congregacionais;

3. Presbiterianos;

4. Batistas;

5. Metodistas;

6. Anglicanos/Episcopais.

Tivemos a criação, pelos irmãos presbiterianos Vieira Ferreira da autóctone e proto-pentecostal

(7) Igreja Evangélica Brasileira.

8. Igreja Cristã Evangélica (congregacionais imersionistas), em 1901, e, finalmente, o cisma (nacionalismo/questão maçônica), que fez surgir, em 1903, a

(9) Igreja Presbiteriana Independente (IPI).

A primeira metade do segundo século (1910-1960) foi marcada pela chegada do Pentecostalismo:

(10) Congregação Cristã no Brasil e

(11) Assembleia de Deus.

Na década de 1930, uma dissidência da Assembleia de Deus, no Nordeste, cria a

(12) Igreja de Cristo,

E uma dissidência da IPI, em São Paulo, cria a

(13) Igreja Presbiteriana Conservadora (IPC).

No pós-segunda Guerra Mundial, os ecos das lutas forâneas entre ecumenismo (agora hegemonizada pelos liberais) do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), fundamentalismo do Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (CIIC) e evangelicalismo da Fraternidade Evangélica Mundial (WEF) têm um rebatimento também aqui, com a criação, no Nordeste, da

(14) Igreja Presbiteriana Fundamentalista (IPF).

O fundamentalismo igualmente nos chega com os

(15) Batistas Regulares.

Também no Nordeste, uma ala da Assembleia adere ao Calvinismo, e cria a

(16) Igreja Pentecostal Assembleia de Deus.

No meio Pentecostal, aporta aqui a Cruzada Nacional de Evangelização, com a

(17) Igreja do Evangelho Quadrangular,

Surge, de dissidentes dessa e da Assembleia de Deus, a partir do Estado de São Paulo, a nativa

(18) Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo”.

De agora em diante, não dá mais para contar. A segunda metade do segundo século da presença protestante no Brasil (1960-2010) vai ser marcada por uma aceleração desenfreada do divisionismo denominacionalista. Primeiro com o chamado “Movimento de Renovação Espiritual”, de tendência pentecostal, que racha as principais e mais antigas denominações históricas (batistas, presbiterianos (IPB e IPI), congregacionais, metodistas e luteranos), gerando, inicialmente, a Convenção Batista Nacional (CBN), a Igreja Presbiteriana Renovada (IPR), a Aliança das Igrejas Congregacionais do Brasil (AICB), a Igreja Metodista Wesleyana (IMW), e a Igreja Luterana Renovada (ILR). Daí em diante esses grupos sofreram subdivisões, e começa a “criatividade brasileira”, com uma miríade de “denominações” pentecostais “made in aqui mesmo”, com os nomes mais“originais”, para dizer o mínimo. Por último, com a Teologia da Prosperidade e a Teologia da Batalha Espiritual “amorenadas”, nos vem o crescente fenômeno do neo(pseudo)pentecostalismo: Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), e um número avassalador de divisões e subdivisões.

Igreja Romana conhecera os cismas da Igreja Brasileira (ICAB) e da Igreja Livre (hoje com o remanescente dito Independente), e daí não parou mais de surgir cismas“católicos” em cada esquina. Os Vétero-Católicos, que nunca vieram para o Brasil, olham espantados da Europa a quantidade de grupos que usam essa denominação entre nós. Os Adventistas do Sétimo Dia, além do cisma dos extremados Adventistas da Reforma, viram surgir o nativo e pentecostalizante Adventistas da Promessa. Até os Luteranos/Episcopais também começam a ver surgir grupos “continuantes”, “de convergência”, ou “independentes” (os anglicanos usam o termo “jurisdições” e não“denominações”), algumas formadas por quem nunca pos os pés em uma Igreja Anglicana. E aí nos vem o “movimento apostólico”, com seus apóstolos e apóstolas, o G-12, o M-12, além da importação de movimentos, métodos e macetes que o Tio Sam é pródigo em criar e exportar. Começam a surgir as combinações dentro da cultura “self-service” pós-moderna, como a Igreja Batista Renovada do Sétimo Dia ou a Assembleia do Reino de Deus. De 1989, para cá, após o caso do racha da Convenção de Madureira, afirma-se que houve mais de 100 cismas de Convenções e Ministérios da Assembleia de Deus.

Bem dizia Pero Vaz de Caminha, autor da primeira carta a El-Rei de Portugal, que em nossas terras “em se plantando tudo dá”, especialmente “denominações” de um Cristianismo dilacerado, animado pela “criatividade”, e se auto-enganando com o pensamento “pelo menos o evangelho está sendo pregado!”. Que “evangelho”, cara pálida!!?

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Observação do Pensando a Vida: O mais grave em toda essa explosão de divisões é a falta de sensibilidade de muitos cristãos em perceber que essa situação é uma grave afronta ao propósito de Deus e à oração de Jesus: “que eles sejam um a fim de que o mundo creia”. Que o Espírito Santo produza em nós o arrependimento necessário para que experimentemos a unidade do Corpo de Cristo.


abr 2 2010

A Cruz: loucura, glória e salvação

Hoje, sexta-feira chamada santa, um número expressivo de cristãos em todo o mundo estão relembrando a crucificação e morte do Senhor, numa série de celebrações que têm seu ponto alto no Domingo de Páscoa, quando estarão comemorando a Ressurreição. Há também uma parcela significativa de cristãos que não observam esta data, uma vez que não há uma orientação bíblica sobre o tema e por considerarem todos os dias iguais (Rm. 14:5). Contudo, este dia não deixa de nos oferecer mais uma oportunidade de pensarmos sobre o escândalo da cruz e o poder de sua mensagem. Por isso, quero dedicar os posts deste fim de semana ao tema da morte e ressurreição do Senhor.

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O Escândalo da Cruz

Autor: Robinson Cavalcanti

Fonte: Diocese Anglicana do Recife

O apóstolo Paulo resumindo o cerne da sua mensagem como missionário, afirmou:“Nada fiz conhecer entre vós do que a Cristo, e esse crucificado”. A cruz, desde os primórdios da história da Igreja – e hoje – tem sido considerada “um escândalo”. Humanamente, como pode um instrumento de execução vil do Império Romano ser transformada no símbolo maior da que é hoje a maior religião do mundo? Sabemos que três são os símbolos fundamentais para o Cristianismo: a manjedoura, a cruz e otúmulo vazio, e nem sempre todos os segmentos cristãos têm dado a devida importância a todos, ora enfatizando uns, ora não enfatizando outros. Mas eles são inseparáveis na economia da salvação.

As religiões do mundo – todas elas – negam e rejeitam a cruz e o seu significado, inseparável da Providência e da Graça de Deus, incompreensível para os que buscam a salvação na Lei, nas Obras, nas Mortificações ou na Reencarnação. Se a Graça é algo único, a Cruz também é algo único, como única é a fé gerada pelo Espírito Santo, que nos faz receber a Graça e aceitar as implicações da cruz.

Em tratando dos sacrifícios do Antigo Testamento, com os cordeiros imolados prefigurando o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ensina a Palavra que: “sem derramamento de sangue não há salvação”. Pode ser difícil entender pelos olhos da carne, porque é um mistério insondável.

Mas, assim aprouve ao Pai agir em um Filho que se doou.

Muitas seitas paracristãs, como as Testemunhas de Jeová e os Mórmons, procuram“reinterpretar” o sentido da cruz; o mesmo se diga do Liberalismo Moderno e do Liberalismo Pós-Moderno, que acha “chocante”“irracional”“repulsivo” essa interpretação “forense” da cruz: alguém que toma o lugar de outro e paga a sua pena.

A obra de salvação se fez perfeitamente na cruz, e o sangue do seu Filho Jesus Cristo nos purifica de todo o nosso pecado, por ele somos lavados e justificados, e a cruz, que tem um lugar de honra em nossas igrejas, está vazia, porque Ele ali não ficou.

Por isso não podemos centrar a nossa mensagem em algo outro senão a cruz.

Por isso, contritos e com fé, cantamos “Rude Cruz”.

Cristo humilhou-se a Si mesmo e obedeceu à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes.

“Concede-nos misericordioso que, seguindo o caminho da cruz, seja este para nós vereda de vida e paz” (Livro de Oração Comum Brasileiro – LOCb).

  • Robinson Cavalcanti é bispo anglicano do Recife.

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