ago 4 2011

Deus, irrelevante? Acredite, se quiser!

Fonte: Ultimato

Autor: Karl Heinz Kienitz

“Deus está morto”. A frase do filólogo e filósofo Friedrich Nietzsche firmou-se como grito de torcida de certos grupos que rejeitam o Cristianismo.

Investida mais modesta que a de Nietzsche foi difundida pelo aristocrata e matemático britânico Bertrand Russell: propôs que Deus seria irrelevante. Considerou que “Deus e a imortalidade, os dogmas centrais da religião cristã não encontram apoio na ciência. (…) Eles estão fora da região de conhecimento provável e não há nenhuma razão para considerar qualquer um deles.”1

Em primeiro lugar é fato que Deus e imortalidade são realidades para muitas culturas e religiões; não são exclusividade da “religião cristã”. Em segundo lugar, vale à pena lembrar que no “centro da religião cristã” não estão dogmas, como escreve Russell, mas a pessoa e as realizações de Jesus, descritos com expressiva confiabilidade histórica2 em quatro livros chamados Evangelhos. Em terceiro lugar, o termo “conhecimento provável” é especialmente pertinente à matemática, e entre os grandes matemáticos é significativo o número dos que – ao contrário de Russell – reiteraram a importância de considerar Deus e a imortalidade: Leibniz, Bernoulli, Pascal, Euler, Gauss, Cauchy, Boole, Hermite, Riemann, Hamilton e Gibbs, para citar alguns.

Ao desconsiderar tudo aquilo que está fora do tal “conhecimento provável”, Russell e seus companheiros de opinião lançam fora Deus e a imortalidade, bem como um fundamento sólido para compaixão, misericórdia, bondade, amor, etc. Consequências funestas para as predisposições, motivações e ações são inevitáveis; podem ser conferidas com o próprio Russell que escreveu: “Ultimamente tenho sido meramente oprimido pelo cansaço, tédio e a vaidade das coisas, nada parece valer à pena fazer ou ter sido feito. A única coisa que eu sinto fortemente que vale à pena, seria matar tantas pessoas quantas possíveis de modo a diminuir a quantidade de consciência no mundo.”1 “Há um ódio feroz em mim, um ódio que é também uma fonte de vida e energia – não seria realmente bom se eu deixasse de odiar… Eu costumava ter medo de mim mesmo e do lado escuro do meu instinto, [mas] agora eu não tenho.”1

A perplexidade aumenta ainda mais diante da modernidade que Russell tenta conferir à sua proposta. O antiquíssimo livro de Jó já descreve pessoas decididas pela irrelevância de Deus: “Quem é o Deus Todo-poderoso para que o adoremos? Que adianta fazer orações a ele?”3 “Ciência” e “conhecimento provável” não integram o vocabulário do livro de Jó, mas o contexto deixa claro que a razão alegada para a decisão daquelas pessoas foi a falta de percepção de que Deus faria alguma diferença.

Mas, por que considerar que Deus e imortalidade são, sim, relevantes? O matemático Gauss disse: “Existem questões a cuja resposta eu daria um valor infinitamente maior do que às matemáticas, por exemplo, questões sobre ética, sobre nosso relacionamento com Deus, sobre nosso destino e nosso futuro. Para a alma existe uma satisfação de espécie superior, para a qual dispenso o que é material.”4 Para Gauss, assuntos relevantes não se limitam àqueles tangíveis pelo método científico ou pela matemática.

Por que Russell acreditava o contrário? O motivo está num fenômeno descrito pelo matemático Pascal: “A vontade, que prefere um aspecto a outro, afasta a mente de considerar as qualidades daquilo que não gosta de ver.”5 De certa forma, Pascal resume o que Paulo de Tarso já havia dito sobre contemporâneos seus que (como Russell) “reprimiram a verdade”6: “Sua realidade invisível – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. Pois, tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados, e seu coração insensato ficou nas trevas.”7

Felizmente a condição descrita por Paulo não precisa ser terminal. Isto é exemplificado pelo escritor C.S. Lewis, pela cantora Nina Hagen, pelos cientistas Francis Collins e Alister McGrath, e tantos outros que, deixando de “reprimir a verdade” voltaram-se a Jesus, tiveram suas vidas transformadas, e aderiram à confissão que o ex-cético Tomé fez diante do Cristo ressurreto: “Meu Senhor e meu Deus!”8


* Karl Heinz Kienitz

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Notas
(1) Citado em D.J. Peterson – “Bertrand Russell: Prophet of the New World Order,” New Oxford Review, 2000.
(2) Veja por exemplo F.F. Bruce – Merece confiança o Novo Testamento? Editora Vida Nova, 2004.
(3) Jó 21:15 (Nova Tradução na Linguagem de Hoje).
(4) Citado em J. Gutzwiller – Das Herz, etwas zu wagen, Friedrich Bahn Verlag: Neukirchen-Vluyn, 2000.
(5) Blaise Pascal – Pensèes, fragmento 99.
(6) Romanos 1:18b (Bíblia da CNBB).
(7) Romanos 1:20-21 (Bíblia de Jerusalém).
(8) João 20:28 (Bíblia de Jerusalém).


abr 11 2011

Enquanto isso, no planeta dos macacos…

No último mês de fevereiro, enquanto aguardava no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro meu vôo para Santiago do Chile, conversava sobre aviões com um dos meus irmãos. Em meio a essa conversa, lhe disse como é impressionante o fato de que nós, seres humanos, somos capazes de cruzar o continente através de aviões, enquanto que a espécie animal que estaria mais próxima de nós em grau evolutivo ainda está pulando de galho em galho. Às vezes me parece que perdemos a capacidade de admirar os feitos da raça humana, e perceber o imenso abismo que nos distingue das outras espécies.

Nós inventamos a roda. Começamos a utilizar animais como meio de locomoção. Inventamos a carroça, o automóvel, o trem-bala. Aprendemos a cruzar os mares e oceanos. Criamos o barco, o navio, o submarino. Aprendemos a cruzar o céu. Inventamos o helicóptero, o avião, o jato. Chegamos ao ponto de sair do planeta por meio de foguetes e ônibus espaciais. Enquanto isso, os macacos…

Chegando ao Chile, logo fiz uma ligação para minha família no Rio de Janeiro. Fico admirado com nossa capacidade de comunicação à distância. Criamos alfabetos, começamos a escrever cartas. Inventamos o telégrafo, o telefone, o aparelho celular, o rádio, a televisão, a internet. Enquanto isso, os macacos…

Ainda nas cavernas, começamos a fazer pinturas. Daí em diante,  nossas habilidades nessa área se desenvolveram. Hoje algumas de nossas pinturas se encontram em museus e exposições de artes. Começamos a fazer esculturas, poesia, música, literatura, teatro, cinema. Enquanto isso, os macacos…

Nos dedicamos ao conhecimento. Estudamos o homem (antropologia), o corpo humano (biologia, medicina), a mente humana (psicologia), a sociedade humana (sociologia), o pensamento humano (filosofia). Estudamos os animais (zoologia) e as plantas (botânica). Desenvolvemos ciências como a física, a química, a matemática, a astronomia. Enquanto isso, os macacos…

Por mais que haja semelhança entre o homem e o macaco, a tal ponto que o darwinismo supõe que ambas as espécies descendem de um antepassado em comum, o que me surpreende e me deixa fascinado é o fato que, apesar de tais semelhanças, há uma diferença abismal entre essas espécies. E para mim, o teoria da evolução ainda se mostra insuficente para explicar tão extraordinária diferença.

Diante do que os meus olhos observam, ainda faz todo sentido para mim uma antiga declaração, feita por Aquele que existe desde sempre: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn. 1:26).

Em Cristo,

Anderson Paz

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jan 12 2010

A evidência das cavernas

Autor: G. K. Chesterton
Fonte: livro O Homem Eterno
Via: blog Orthodoxia

Aqui só trato do caso concreto da caverna, como uma espécie de símbolo da verdade singela com que deve principiar a história. De tudo o que se descobriu nela, a única coisa que se revela de certo é que o homem sabia pintar quadrúpdes e os quadrúpedes não sabiam pintar homens. Se o homem que os pintava era tão animal como eles, ressalta como extraordinário que soubesse fazer o que eles não sabiam e não sabem. Se o homem, ainda, era um produto de crescimento biológico, como qualquer outro animal, também é de estranhar, sobremaneira, que em nada se pareça com aqueles seus semelhantes. (…) Há alguma coisa que separa fundamentalmente o homem dos animais. A arte é patrimônio do homem.

G.K. Chesterton



dez 28 2009

A aposta de Pascal

Autor: Karl Heinz Kienitz
FonteSeção Opinião do site da revista Ultimato
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Num dos fragmentos da coletânea Pensées, o matemático, físico e filósofo Blaise Pascal (1623-1662) apresentou o que se conhece hoje como a aposta de Pascal. Trata-se de uma proposta de decisão, colocada na forma de uma aposta incontornável, isto é, da qual ninguém pode fugir. Esta aposta pode ser resumida da seguinte forma:

Como alguém que escolhe ser cristão pode perder? Se, ao morrer, constatar que Deus não existe e sua fé foi em vão, não perdeu nada — pelo contrário, viveu uma vida com mais percepção de sentido e esperança do que um descrente. Se, no entanto, há um Deus e um céu e um inferno, então ganhou o céu, ao passo que um descrente perdeu tudo.

Com sua aposta, Pascal não pretende provar a existência do Deus da Bíblia, como conjecturam alguns. Aliás, Pascal enfatiza num parágrafo introdutório que não se pode provar a existência de Deus pela razão. Em outro fragmento de Pensées ele explica que uma prova da existência de Deus precisa ser relacional: “Nós conhecemos Deus somente através de Jesus Cristo… Todos que afirmam conhecer Deus, e o provam sem Jesus Cristo, tem somente provas débeis. No coração de cada ser humano há um vazio dado por Deus, que somente ele pode preencher através de seu filho Jesus Cristo”.

Há os que criticam Pascal por desconsiderar a fé de outras religiões na aposta. Pascal o fez, presumivelmente porque no restante de Pensées (e em outras obras) examinou alternativas e concluiu que, se alguma fé está correta, seria a fé cristã.

Assim como Pascal, o físico e químico Michael Faraday (1791-1867) também escolheu ser cristão. Referindo-se a Jesus, Faraday disse a jornalistas durante entrevista: “Eu confio em certezas. Sei que meu Redentor vive, e porque ele vive eu também viverei”. O testemunho de Faraday ilustra como a aposta de Pascal já em vida pode resultar em certeza, a certeza inabalável da fé.

Karl Heinz Kienitz é doutor em engenharia elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. www.freewebs.com/kienitz


set 4 2009

Charles Darwin se converteu?

Em 15 de abril de 2008, postei neste blog o texto“O Naturalista e o Missionário: Charles Darwin e Robert Kalley”, que rapidamente se tornou o post mais visualizado do blog. Uma grande parte dessas visualizações vieram de pesquisas feitas no Google sobre a suposta conversão de Charles Darwin, o pai da teoria da evolução das espécies. Existe muita gente interessada em confirmar a veracidade da informação de que Darwin, em seus últimos momentos de vida, teria se convertido à fé cristã.

No post citado, não é feita nenhuma referência à conversão de Darwin, mas apenas relata apenas que passava por conflitos íntimos. Na verdade, não há nenhuma informação segura de que Darwin tenha se convertido, e seus filhos negaram que isso tenha ocorrido. Portanto, isso é uma das coisas que só será conhecida no dia em que o Senhor voltar, quando trará à luz as coisas ocultas e manifestará os desígnos dos corações (I Co. 4:5).

Darwin, tendo recebido uma educação religiosa, ao longo de sua vida foi se desfazendo dessa bagagem, contudo, sua opiniao sobre a existência de Deus variou entre o agnosticismo e uma forma imprecisa de teísmo. Reinaldo José Lopes, em seu texto “Darwin e os ateus fundamentalistas”, cita algumas declarações de Darwin acerca do assunto.

Ao explicar sua posição de agnóstico ao botânico britânico Asa Gray, Darwin escreveu:

“Em relação ao lado teológico da questão: isso sempre me é doloroso. Estou confuso. Não tive a intenção de escrever de forma ateísta, mas devo dizer que não consigo ver de forma tão clara quanto outros veem, e como eu gostaria de ver, as evidências de desígnio e beneficência em torno de nós. A mim parece haver muita desgraça no mundo. Não consigo me persuadir que um Deus beneficente e onipotente teria criado as Ichneumonidade [um tipo de vespa] com a intenção expressa de elas se alimentarem com os corpos vivos de lagartas, ou por que um gato deveria brincar com os camundongos… Por outro lado, não consigo me contentar de forma nenhuma em ver este maravilhoso Universo, e especialmente a natureza do homem, e concluir que tudo é o resultado de força bruta. Estou inclinado a enxergar todas as coisas como resultado de leis projetadas, com os detalhes, sejam eles bons ou maus, deixados à mercê do que podemos chamar de acaso. Não que isso me satisfaça de alguma forma. Sinto de forma muito forte que todo esse assunto é profundo demais para o intelecto humano. É como um cão tentando especular sobre a mente de Newton”.

E em sua auto-biografia, Darwin prossegue com seus pensamentos falando “da extrema dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de conceber este imenso e maravilhoso Universo, incluindo o homem e sua capacidade de olhar para as profundezas do passado e do futuro, como o resultado de acaso ou necessidade cegos. Ao assim refletir, sinto-me forçado a imaginar uma Primeira Causa com uma mente inteligente, em algum grau análoga à do homem; e mereço ser chamado de teísta”.

Os conflitos religiosos de Darwin consistem em uma demonstração de que as grandes perguntas acerca da vida humana e da existência do Universo, apesar de todo o desenvolvimento da Ciência, ainda não foram respondidas por ela. Contudo, um poeta chamado Davi, ao observar os céus, não resistiu e chegou à simples conclusão: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmo 19:1). E, após olhar para si mesmo, disse a Deus: “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14). Em Deus encontramos nossa razão de ser e o propósito de nossa existência, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11:36).

Anderson Paz

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