Aos evangélicos eleitos como deputados e senadores no último dia 03 de outubro.
Excelentíssimos senhores,
O resultado da eleição revelou um crescimento de 47% da bancada evangélica. O número de evangélicos no Congresso Nacional saltou de 43 para 71 parlamentares, sendo 68 deputados federais e 3 senadores. Isso significa que essa bancada saiu das eleições com o mesmo número de parlamentares do PSDB, e só perde agora para as bancadas do PT e do PMDB, partidos com o maior número de representantes no Congresso.
Acredito que vossas excelências, enquanto cristãos, têm um importante papel a desempenhar na política nacional e podem dar uma valiosíssima contribuição ao nosso país. Contudo, acredito que não lograrão êxito nessa contribuição se não observarem certos princípios e práticas indispensáveis ao parlamentar cristão. Em uma contribuição aos vossos mandatos, descrevo abaixo esses princípios:
- Lembrem-se de Neemias, que diante do quadro e pobreza e opressão de seu povo, se posicionou em não comer a comida destinada ao governador, ainda que lhe era lícito (Ne. 5:14,15). Não usem a posição que alcançaram em benefício próprio. Não vivam a desfrutar das benesses do poder. Atuem em favor dos milhões que, apesar dos avanços sociais dos últimos anos, ainda vivem na miséria;
- Lembrem-se e apliquem em suas atividades os conselhos que a mãe do rei Lemuel: “Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados” (Pv. 31:8,9). Não reduzam suas atividades parlamentares à reprovação do aborto e do casamento gay. Nosso país tem muitos outros problemas. Atuem sempre em nome de justiça, da justiça do Reino de Deus (Mt. 6:33);
- Lembrem-se de Esdras, que em seu caminho de volta à Jerusalém, pede a Deus uma viagem segura e diz “tive vergonha de pedir soldados e cavaleiros ao rei para nos protegerem dos inimigos na estrada, pois tínhamos dito ao rei: “A mão bondosa de nosso Deus está sobre todos os que o buscam”" (Ed. 8:22). Não atuem para defender os interesses da Igreja, pois esta já tem quem a defenda: o próprio Deus. É vergonhoso para Igreja se tornar dependente dos benefícios do poder político. Por isso, não façam de suas funções um meio para atender a interesses de suas denominações e grupos eclesiáticos. Como já disse, atuem sempre em favor da justiça;
- Sejam sempre modelo de ética, integridade e honestidade. Atuem com seriedade, sendo uma inspiração ao povo brasileiro, para que este não brinque com seu voto entregando-o a personagens como Tiririca;
- Não se preocupem com leitura pública da Bíblia nas sessões legislativas. Não tenham a mesma preocupação dos vereadores que certa cidade que aprovaram uma lei obrigando a leitura de trechos da Bíblia na abertura das sessões da Câmara. Não apliquem força em projetos similares a esse, até mesmo porque a mera leitura da Bíblia, sem a disposição dos corações em praticá-la, não produzirá efeitos. Também não se preocupem com orações públicas nas sessões, posto que os fariseus também gostavam muito desse tipo de prática. Lembrem-se de Daniel, e cultivem sempre uma vida privada de oração. Em suas atividades no Congresso, cultivem uma atitude interior de oração. Sugiro que meditem na oração abaixo, realizada na Câmara dos Comuns, no Parlamento Inglês, no século XVII:
“Deus todo-poderoso, por quem exclusivamente vem todo conselho, sabedoria e entendimento; nós, teus indignos servos, aqui reunidos em teu nome, com a máxima humildade te imploramos para nos enviar lá do alto a tua sabedoria celestial, para dirigir-nos e guiar-nos em todos os nossos debates; e concede-nos que, tendo sempre teu temor diante dos olhos e deixando de lado nossos interesses, preconceitos e parcialidades, o resultado de todas as nossas discussões possa glorificar teu bendito nome” [1].
Espero que com esta carta eu possa oferecer uma contribuição à aos vossos mandatos.
De um cristão e cidadão brasileiro,
Anderson Paz
[1] -Citado por Philip Yancey, no seu livro “Oração – Ela faz alguma diferença?” São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 31. Via blog Canto do Jo.
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