mai 2 2011

Como é fácil complicar o que é simples (5)

Pensei que a série “Como é fácil complicar…” já havia terminado. Contudo, eu não deveria ter subestimado a capacidade humana de complicar as coisas simples do Evangelho. A criatividade para complicar sempre se mostra viva.

Acabei de ler um texto em que o autor respondia à pergunta sobre a diferença entre o Evangelho da Graça e o Evangelho do Reino. No texto, o autor afirma que Evangelho da Graça é o pregado pelos cristãos hoje, que não deve ser confundido com o Evangelho do Reino, o qual será pregado a chamada Grande Tribulação. Ora, fiquei a me perguntar: De que lugar da Bíblia essa diferença saiu? Pergunto isso pois, quando olho para as Escrituras, vejo claramente que o Evangelho da Graça e o Evangelho do Reino são a mesma coisa.

É um maravilhoso favor imerecido (Graça) saber que fomos transportados do império das trevas para o Reino do Filho de Deus. As Boas Notícias (Evangelho) da Graça são as Boas Notícias do Reino de Deus. E essa é a proclamação de Paulo em Cl. 1:13-14:

“Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados”.

O Reino de Deus é onde a vontade de Deus é feita. É por isso que oramos “venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt. 6:10). Assim como no céu a vontade de Deus é feita de modo pleno e absoluto, ela também deve ser feita aqui.

É importante lembrar que éramos inimigos de Deus (Rm. 5:10), filhos da ira e da desobediência (Ef. 5:1-3), rebeldes contra o Reino de Deus. Contudo, apesar de sermos uma facção rebelde, Deus nos oferece uma condição de paz, através de Jesus. O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele (Is. 53:5), e pela fé nEle temos paz com Deus (Rm. 5:1). E a única possibilidade de nos reconciliarmos com Deus, recebendo a obra de Jesus na cruz, é nos rendendo incondicionalmente ao Seu Reino.

É por tudo isso que Jesus pregava “arrependei-vos porque é chegado o Reino de Deus”, e enviou seus discípulos a pregarem “o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações” (Lc. 24:47). O Senhor nos convoca a deixarmos o estado de rebelião ao nos render ao Reino. Isso é arrependimento.

O Evangelho é simples. Graça é poder estar no Reino de Deus. Como é bom saber que o Pai, em Seu Filho Jesus, me apresenta a possibilidade de me arrepender, rendendo-me ao Seu Reino, à Sua vontade. Que maravilhosa graça! É por ela que sou salvo.

Em Cristo,

Anderson Paz

Série ‘Como é fácil complicar o que é simples’:
Como é fácil complicar o que é simples (1)
Como é fácil complicar o que é simples (2)
Como é fácil complicar o que é simples (3)
- Como é fácil complicar o que é simples (4)


mar 6 2010

Como é fácil complicar o que é simples (4)

Imagem: Pensar e Orar

Os coríntios foram repreendidos por Paulo por estarem divididos. Cada grupo se denominava como sendo de Paulo, de Apolo, de Cefas ou de Cristo. Se isso foi motivo para que os coríntios fossem repreendidos pelo Apóstolo, o que seria dito aos cristãos do século XXI, os quais têm demonstrado uma incrível capacidade de criar nomenclaturas e se dividir em função delas?

Segundo Robinson Cavalcanti, até a Reforma Protestante existiam 4 ramos do Cristianismo. Ao fim da Reforma já eram 11. Chegamos ao século XVIII com cerca de 100, e no fim do século XX já haviam 38.000 denominações.

Parece que alguma coisa está fora do lugar, caminhando distante da oração de Jesus em João 17:21 - ”que todos sejam um … para que o mundo creia que tu me enviaste”.

Se a unidade da Igreja era algo que ocupava o coração de Jesus nos momentos que antecederam sua morte, ela também deveria ser alvo de nossas reflexões e nossas ações.

Pense nisso.

Série ‘Como é fácil complicar o que é simples’:
Como é fácil complicar o que é simples (1)
Como é fácil complicar o que é simples (2)
- Como é fácil complicar o que é simples (3)
…….
Posts relacionados:
Concordando em quase tudo – unidos em quase nada
Não sabemos o que é Igreja
Consumistas de todos os tipos

….


fev 1 2010

Como é fácil complicar o que é simples (3)

Nestes dias estive lembrando de uma igreja na cidade do Recife, que em determinado momento de sua história, por volta dos anos de 1928 e 29, passou por uma crise em torno da forma como a Ceia do Senhor deveria ser celebrada. Uma parte da congregação defendia o uso do cálice comum, e outra parte era favorável ao cálice individual. Há relatos de que as reuniões eram turbulentas, e foram tomadas várias medidas em busca de uma resolução: ceias em horários diferentes; o uso de dois cálices, um comum e um indiviudal para que cada pessoa escolhesse como quisesse, etc.. Mas nada disso foi suficiente. Por fim, a solução encontrada foi fundar uma nova congregação, formada pelos adeptos do cálice comum.

Esse relato me faz pensar: Como pode uma igreja se dividir devido a algo que deveria celebrar sua unidade, a comunhão entre seus membros? Afinal, se não há discernimento do Corpo de Cristo, que é a Igreja, pode haver pão e vinho, mas não há a Ceia do Senhor. Foi isso que Paulo ensinou aos Coríntios ao dizer que, quando eles se reuniam num mesmo lugar, não era para comer a Ceia do Senhor, pois cada um tomava a sua própria ceia. (I Co. 11:20-21). A Ceia deveria nos lembrar que somos membros de um só Corpo, pois comemos do mesmo Pão, que é Jesus, o pão da vida. “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (I Co. 10:16-17).

Não é tão difícil entender como uma igreja se divide em torno da celebração da Ceia. Afinal, é mais fácil nos ocuparmos com a forma do que nos dedicarmos a viver a essência. Viver em verdadeira unidade é muito mais custoso do que participar de um cálice comum ou um cálice individual.

Nossa atenção se volta com facilidade para o que é secundário, e nos afastamos de viver aquilo que é elementar e indispensável. Isso ocorre não apenas em questões litúrgicas,  e não ocorreu apenas na década de 1920, mas envolve muitas outras discussões “evangélicas” presentes nos dias de hoje. Conhecemos muita da teoria, mas vivemos pouco da prática. E a doutrina de Jesus é fundamentalmente prática.

Como é fácil complicar o que é simples. Diante desse constatação, deveríamos lutar para não deixarmos a simplicidade do Evangelho, ou para retornarmos à ela, caso já tenhamos nos afastado.


jan 11 2010

Como é fácil complicar o que é simples (2)

Quem nunca foi interrompido em alguma atividade por uma visita das testemunhas de Jeová? Geralmente elas aparecem pela manhã, sempre em duplas, e quase sempre em momentos inconvenientes. Dizem que há certas técnicas para escapar de uma TJ, como, por exemplo, convidá-la para orar. Não sei se isso dá certo, nunca tentei. Sempre que uma TJ bate à minha porta, busco conversar com atenção.

Numa certa manhã, em que eu estava na casa do Sandro Lourenço (@sandroamd7), fui atender dois TJ’s no portão. Pela minha pequena experiência em conversas com pessoas desse grupo, já fui à espera do tema que iriam abordar, pois a partir daí eu já poderia inferir qual seria o próximo passo.  Naquele dia, me perguntaram se eu cria na imortalidade da alma. Diante da pergunta, imediatamente pensei nos textos que eles provavelmente usariam para me refutar, caso minha resposta fosse sim. Quando respondi que cria que na imortalidade da alma humana, logo usaram o texto de Eclesiástes 9:5 (“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento”).

Eu poderia levar a diante a discussão sobre o tema. Mas, depois de refletir por um momento, decidi seguir outro caminho. Assim que eles usaram o versículo, apenas respondi que, ainda que eu estivesse equivocado em minha crença na imortalidade da alma, de uma coisa eu estava seguro: no dia da ressurreição dos que estão em Cristo, eu quero estar entre eles, e passar a eternidade com o Senhor (I Ts. 4:13-18).  Contudo, a salvação não nos é assegurada por sabermos o que ocorre entre a morte e a ressurreição. Somos salvos quando temos Jesus como Senhor (Rm. 9:9,10), e precisamos viver de forma coerente com essa decisão (“Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?” – Lc. 6:46). Saber sobre o Estado Intermediário pode até ter sua importância, mas meu esforço deveria se concentrar em saber e praticar todas as coisas que Jesus ordenou, uma vez que só assim posso ‘construir minha casa sobre a rocha’ (Mt. 7:24-27).  Estou mais preocupado em perdoar os que me ofendem, orar pelos que me perseguem e amar os meus inimigos do que saber sobre o Estado Intermediário. Quero praticar aquilo que está claro na Bíblia, e buscar entender o que não parece tão claro. Mas, quanto ao que é incompreensível, me limito a Dt. 29:29 – “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”. Somos indesculpáveis diante das coisas reveladas.

O TJ não esperava minha resposta. Ainda tentou manter a conversa, mas não houve mais argumentos. E, depois de nos desperdirmos, fiquei a pensar como é fácil, mesmo que não criemos heresias como as das TJ’s,  concentrarmos a nossa atenção, esforço, empenho, naquilo que é secundário, e deixarmos de lado o que é de fundamental importância. Por que é tão difícil reconhecer que não temos respostas para tudo? E que, em alguns casos, nem poderemos ter. Esse tipo de atitude das TJ’s, e que alimenta essa heresia, encontra-se tambem espalhada por grupos cristãos. Não são poucas as vezes em que lutamos pelo que é de menor importância e nos dividimos pelo que é secundário. É tão fácil fazer das coisas de menor importância um verdadeiro objeto de guerra.

É preciso que nos voltemos à espantosa, sublime, surpreendente e maravilhosa simplicidade do Evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor!

Em Cristo,

Anderson Paz

Deixe seu comentário aqui


jan 4 2010

Como é fácil complicar o que é simples (1)

Nestes dias estive me recordando de uma das visitas do Franco (@francoamd7) à Curitiba, quando ele, ao estar reunido com os jovens, fazia a seguinte pergunta: qual é o segredo para experimentar a vontade de Deus? Assim que ele perguntou, imediatamente lembrei do texto de Paulo em Rm. 12:1-2 – “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

Logo pensei que a resposta seria a entrega da vida a Deus, como sacrifício sobre Seu altar. Mas, apesar de ter pensado nisso, não respondi à pergunta, pois essa palavra sobre entrega, renúncia, sacrifício, apesar de forte e profunda, não era algo novo. Minha expectativa era de que o Franco compartilhasse algo novo, surpreendente. Entretanto, ao contrário do que eu esperava, a resposta do Franco era exatamente a que eu pensava no início. Ao término daquela reunião, apesar do peso e da profundidade daquela palavra, saí com a sensação de que não tinha ouvido nada de novo, mas reforçado princípios já conhecidos.  De certa forma, minha expectativa não foi atingida.

Contudo, naquele momento percebi o Espírito Santo me dizendo que eu estava me sentindo daquele jeito, com a expectativa não alcançada, porque eu ainda não estava entendendo que a Palavra do Reino é simples, tão simples que todos os seus mandamentos podem ser resumidos em apenas dois: ame a Deus e ame o próximo.

Eu esperava informações novas, surpreendentes, impactantes, mas a vida cristã não consiste em saber cada vez mais informações bíblicas, mas em experimentar, cada vez com mais profundidade, verdades antigas. O impacto da Palavra em nossas vidas, não surge do fato de consistir numa nova informação, mas numa experiência nova, uma vivência diferente.

O Evangelho não nos traz uma sucessão interminável de ensinos. Jesus ordenou que, na obra de fazer discípulos, devem ser ensinadas todas as coisas que Ele ordenou (Mt. 28:18-20). Se são todas as coisas, logo não pode ser interminável. Paulo, aos presbíteros de Éfeso, disse que havia ensinado todo o conselho de Deus (At. 20:27). Ora, a vida cristã consiste em experimentar em novos níveis a Palavra que muitas vezes é a mesma. Por exemplo: há um mandamento para em tudo dar graças (I Ts.  5:18) . Num primeiro momento, aprendemos a dar graças nas situações boas, num outro nível aprendemos a dar graças numa situação ruim. O mandamento é o mesmo, mas as circunstâncias em que o experimentamos mudam. Num momento, aprendemos o contentamento na fartura, e em outro na escassez (Fp. 4:11-13). E é assim que nossa experiência com a Palavra pode ser nova todos os dias. A Palavra é a mesma, mas seu sabor se torna especial a cada situação em que ela é praticada. Não podemos ir à Bíblia como se fôssemos à uma biblioteca atrás de informações novas, novidades teológicas.

Me assusta a quantidade de publicações cristãs, livros, Bíblias comentadas, que são lançados todos os anos, enquanto que a Bíblia nos aponta o caminho de um ensino simples, mais voltado à prática do que ao acúmulo de informações. Essa sede por coisas novas tem sido fonte que alimenta o surgimento de heresias. Não é sem razão que Paulo orientou a Timóteo a fugir dos falatórios inúteis (II Tm. 2:16)

A doutrina de Jesus,  que maravilhava aqueles que a ouviam (Mt. 7:28), consistia em mandamentos práticos como amar o inimigo, perdoar, etc (Mat. 5-7). A sã doutrina, segundo Paulo, consistia em mandamentos práticos para diferentes grupos: idosos, idosas, jovens etc (Tt 2). Quem ensina outra doutrina “é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas” (I Tm. 6:3-4),

Deveríamos lembrar das palavras de Paulo: “A mim, não me desgosta e é segurança para vós outros que eu escreva as mesmas coisas” (Fp. 3:1).

Paulo também nos alerta sobre a necessidade de nos mantermos fiéis à simplicidade e pureza devidas a Cristo (II Co. 11:3). Contudo, para nós é muito fácil complicar o que é simples. Essa é uma tentação em que nos envolvemos com muita facilidade. Devemos estar atentos e vigilantes, pois nos afastar da simplicidade é um dos objetivos do nosso adversário, que “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (I Pe. 5:8).

Em Cristo,

Anderson Paz


Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes