dez 8 2010

Perdão, confiança e desconfiança

Continuação do post Sobre a natureza do perdão

Recentemente assisti um vídeo onde Mark Driscoll aborda o tema “o que perdão não é”, esclarecendo alguns equívocos existentes em torno do tema. Driscoll faz declarações importantes para que tenhamos uma visão correta sobre o perdão, como a de que perdoar não é  esquecer. De fato, a Bíblia diz que Deus não se lembraria de nossos pecados (Jr. 31:34), mas isso não significa que Ele sofra de amnésia ao nos perdoar. Muito pelo contrário, Ele é onisciente, e todas as coisas estão claras para Ele. Portanto, Deus não esquece de nossos pecados quando nos perdoa, mas Ele decide não os levar em consideração para nos condenar. Uma vez que alcançamos o perdão de Deus, nossos pecados não serão lembrados em juízo.

Deus não apaga nossos pecados de Sua memória, e Ele lembra tão bem que disciplina e corrige aqueles a quem perdoa: “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho… para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade” (Hb.12:6,10). Por nos perdoar é que Ele nos corrige. Somos repreendidos pelo Senhor para que não sejamos condenados com o mundo (I Co. 11:32)

Perdoar não é esquecer, negar o pecado, ou diminuí-lo. Driscoll também afirma perdoar não é confiar. E até aí concordo com ele, mas acredito que essa afirmação isolada pode nos levar a uma ideia equivocada sobre o perdão. Quando perdoamos alguém, nossa confiança nessa pessoa não é automaticamente restaurada. Confiança é coisa que se constrói ao longo do tempo. Mas eu acrescentaria algo ao que Driscoll disse. De fato, perdoar não significa a restauração imediata da confiança, mas consiste em demolir os obstáculos que possam impedir sua reconstrução. É deixar espaço, sem colocar barreiras, para que a confiança possa ser conquistada novamente, a tal ponto que ela, com o passar do tempo, possa ser igual ou maior do que a que existia antes da ofensa.

Portanto, ao perdoar, deixe que a pessoa ofendida reconstrua a confiança. Lembre-se que os muros que levantamos para nos proteger são os mesmos que nos separam. Perdoar é abrir a possibilidade de reconstrução de relacionamentos.

Em Cristo,

Anderson Paz

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Posts da série “O que é perdão?”
- O direito de não perdoar
- Sobre a natureza do perdão

dez 3 2010

Sobre a natureza do perdão

No post O direito de não perdoar me comprometi a escrever um post sobre a natureza do perdão, ou seja, definir o que é perdão.

Ora, não há pessoa melhor para nos ensinar o perdão do que o próprio Deus. Afinal, como Paulo disse: “… sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef. 4:32).

Nessa tarefa de tentar definir o que é perdão, acredito que o texto do Salmo103 tem muito a nos ajudar. Nesse salmo, o autor exalta algumas virtudes de Deus dizendo: “É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças” (v. 3). E ao longo do texto, o autor mostra como esse Deus perdoador se relaciona conosco:

“O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniqüidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões” (v. 8-12).

Deus nos perdoa quando decide não nos tratar conforme os nossos pecados, não nos retibuindo segundo merecemos, quando seu relacionamento conosco não é determinado pelos nossos erros. E é com Ele que devemos aprender a perdoar uns aos outros.

Agora, como levar essa definição de perdão em consideração na hora de perdoar alguém? Nosso perdão implica em ignorar o pecado, em esquecê-lo ou negá-lo? Esse é o tema abordado no post Perdão, confiança e desconfiança.

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dez 1 2010

O direito de não perdoar

A Bíblia não pode ser lida em tiras, isolando um texto do seu contexto. Se não lermos a Bíblia da forma devida, muitas das suas riquezas podem passar desapercebidas. Exemplo disso está na figura do servo inútil, usada por Jesus em Lucas 17:7-10:

“E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa? E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu? Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não. Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer”.

Perceberemos mais da riqueza desse texto ao lermos o ensino que lhe precede, qual o mandamento que o Senhor está dando aos seus servos naquele momento. Lucas 17:3-6 diz o seguinte:

“Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me; perdoa-lhe. Disseram então os apóstolos ao Senhor: Acrescenta-nos a fé. E disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria”.

Logo depois de ensinar que perdoar é um dever de todo aquele que o segue, Jesus começa a falar sobre o servo inútil, aquele que só fez o que deveria fazer.

Perdoar não deve ser uma opção na vida do discípulo de Jesus. Perdoar não é algo que vai além do nosso dever, não acumulamos méritos com isso.

Já tomamos a decisão de seguir a Jesus, e agora, todas as nossas decisões cotidianas devem girar em função dessa decisão maior: a de seguir nos passos dAquele que, mesmo sofrendo a tortura e a morte, foi capaz de orar em favor de seus algozes dizendo: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Diante do exemplo deixado por Jesus, não temos o direito de não-perdoar: “assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (Cl. 3:13).

Em um próximo post pretendo tratar da natureza do perdão.

Em Cristo,

Anderson Paz

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