Uma leitura superficial e desatenta pode deixar a impressão de que há uma contradição entre os dois versículos abaixo:
“O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate” (Pv. 15:13).
“Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração” (Ec. 7:3).
Contudo, basta uma análise mais atenciosa para percebermos que os versículos estão falando de coisas distintas. O primeiro fala de um movimento do interior para o exterior (do coração para o rosto). O segundo fala de um movimento do exterior para o interior (do rosto para o coração). O primeiro fala da essência que muda a aparência. Já o segundo fala de algo externo que influencia a essência. O primeiro fala sobre como a condição do coração se exterioriza. O segundo fala do impacto do exterior sobre a condição do coração.
Eclesiastes 7:3 é precedido pelo seguinte versículo: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração”. É nesse contexto que o autor diz: “com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”. O autor chama a nossa atenção para a importância de estarmos atentos para a realidade, de não deixarmos nos iludir e enganar. Devemos lembrar que a vida é frágil, curta, passageira, efêmera. Conscientes disso, podemos chegar à conclusão do autor de Eclesiastes: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Ec.12:13). Podemos também concordar com o autor do Salmo 39, quando declara: “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará. Agora, pois, SENHOR, que espero eu? A minha esperança está em ti“ (Sl. 39:6-7)
Uma vez tendo a esperança depositada em Deus, temos acesso à fonte de toda alegria, e assim, tendo o coração preenchido pela presença do Senhor, podemos desfrutar da realidade descrita no texto de Provérbios: “o coração alegre aformoseia o rosto”.
Portanto, tenhamos nossas mentes atentas e corações sensíveis para aprendermos o que Deus nos quer ensinar em toda e qualquer situação, seja de alegria, seja de tristeza. Afinal, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.
João, em sua terceira carta, escrita já ao fim de sua vida, faz uma declaração muito interessante sobre aquilo que seria sua maior alegria. Acredito que temos algo muito importante a aprender com esse homem que andou tão próximo do Senhor Jesus. João diz a Gaio, seu filho na fé: “Não tenho alegria maior do que ouvir que meus filhos estão andando na verdade” (III Jo. 1:4). Ora, deveríamos pôr grande atenção a essa declaração feita por alguém que havia andado com Jesus e que já se encontrava no fim de sua longa experiência de vida e ministério. Ver os filhos andando na verdade: realmente isso deve ser uma alegria extraordinária, indescritível.
Somos chamados e comissionados pelo Senhor a investir na vida de pessoas, e para desfrutar do prazer em ver o resultado disso, o fruto do nosso investimento. Tão grande é esta felicidade que todo o custo necessário para alcança-la vale a pena.
Paulo também era conhecedor dessa alegria, e por isso também não media esforços para investir em pessoas. Chegou a dizer aos cristãos da Galácia: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl.. 4:19). E para os cristãos de Corinto, Paulo diz: “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas” (II Co. 12:15). Aos colossenses, o apóstolo diz que tinha um grande combate por eles (Cl. 2:1). Esse investimento se traduz no empenho em anunciar a Cristo (Cl. 1:28,29), ensinar a guardar a Palavra (Mt. 28:18-20), se apresentar como modelo de vida (I Co. 11:1), se dedicar em oração (Ef. 1:16), entre outros passos práticos.
Sabedores de que nossa realização e plenitude se encontram no fazer a vontade de Deus, gastemos de nós mesmos tudo o que for necessário para investir em pessoas, cumprindo com fidelidade o mandamento: “Ide, fazei discípulos”
Ao ler as Escrituras posso ter convicção de que Deus quer me fazer feliz, Ele quer me ver alegre. Essa certeza decorre da leitura das muitas bem-aventuranças mencionadas ao longo da Bíblia, bem como também de afirmações claras como a de que a alegria é fruto do Espírito (Gl. 5:22), devemos servir a Deus com alegria (Sl. 100:2), alegrar-se sempre no Senhor é um mandamento (Fp. 4:4), e que podemos pedir alegria a Deus (Sl. 51:12). Com isso não estou afirmando que o objetivo principal de Deus é alegrar o homem, pois a Bíblia é clara ao dizer que o Senhor faz tudo para o louvor da Sua própria glória. Mas, Deus quer nos fazer felizes e alegres NEle, pois isso resulta em glória ao Seu Nome. O salmista já havia percebido isso quando orou: “Satisfaze-nos pela manhã com o teu amor leal, e todos os nossos dias cantaremos felizes” (Sl. 90:14).
Talvez pareça estranho o mandamento “Alegrai-vos”. A alegria é simples de ser produzida? Ora, o mandamento parece estranho se não compreendermos que ele traz consigo alguns passos práticos a serem tomados. Há um caminho para a alegria. Um exemplo, entre outros, de passo prático no caminho para a alegria está em João 16:24 – “Até agora vocês não pediram nada em meu nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa”. Sem sombra de dúvida, Jesus quer nos alegrar por meio das respostas às nossas orações. E quer que nossa alegria seja completa, plena. Contudo, o Senhor também deixa claro que respostas às nossas orações exigem perseverança, pois Ele mesmo nos ensina sobre o dever de orar sempre, sem jamais esmorecer (Lc. 18:1-8), e também nos diz: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc. 11:9).
Uma das razões de não experimentarmos a alegria que Deus tem para nós, está no fato de não darmos os passos necessários no caminho para a alegria. Muitas vezes esses passos exigirão de nós esforço, empenho, dedicação, perseverança. Contudo, sempre é bom lembrar que “aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão”. (Sl. 126:5)
Ainda na leitura do Salmo 1, percebemos que os que orientam seu caminho conforme a vontade do Senhor, apresentam uma característica em comum: a felicidade. Ou seja, os que fazem a vontade de Deus experimentam o estado interior de satisfação, de plenitude.
A. W. Tozer, ao descrever as características do homem espiritual, afirma que este é marcado pelo “desejo de ser santo em lugar de feliz”. Ora, certamente Tozer está fazendo referência ao conceito mundano de felicidade, pois, segundo o conceito exposto no Salmo 1, não haveria felicidade que não decorresse da obediência ao Senhor. Portanto, a busca pela santidade necessariamente conduziria à felicidade, à verdadeira felicidade, que é a satisfação em Deus. Afinal, existimos para Ele. Sem obediência a Deus o máximo que se pode alcançar é o prazer transitório do pecado (Hb. 11:25), andando por caminhos que ao homem parece certo, mas que ao fim conduzem à morte (Pv. 16:25).
Não há santidade que não resulte em felicidade. Não há felicidade que não nasça do compromisso com a santidade. Feliz é aquele que pode dizer: tenho o Senhor, não preciso de mais nada, Sua graça me é suficiente, Seu amor é bastante para mim.
Saber dessas verdades é algo indispensável em nossa caminhada cristã. Afinal, o próprio Senhor Jesus suportou a cruz porque tinha em vista a alegria que lhe estava proposta (Hb. 12:2). Ele viu o fruto do penoso trabalho de sua alma, e se alegrou (Is. 53:11). Quanto a nós, o autor da carta aos Hebreus nos lembra que os que se aproximam de Deus devem crer não apenas que Ele existe, mas que Ele também é recompensador daqueles que o buscam. E qual é a melhor recompensa que podemos receber de Deus? Jesus responde a essa pergunta ao dizer:
“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (João 14:23).